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Conto: O Teatro, de Leandro Leite


Leandro Leite

            Hugo Rossi era um jovem jornalista que nos últimos tempos não estava tendo o prestígio que merecia na emissora de TV na qual trabalhava. Logo que foi contratado, ficou responsável por cobrir as pautas culturais, elaborando matérias que fossem ao ar no telejornal local noturno. O problema é que a área de cultura na cidade não trazia uma vasta gama de matérias que fossem interessantes para ir ao ar todas as noites, isso até o encerramento do Festival de Teatro no dia anterior.      
            “Entraremos com o link ao vivo em um minuto, Rossi”, disse o produtor enquanto corria para detrás da câmera, ao sentar pegou seus enormes fones de ouvido e esperou o sinal para que Hugo começasse a dar a notícia do dia.
O cenário que se erguia atrás de Rossi era a fachada do majestoso Teatro Amazonas, toda lacrada com faixas policiais e moldurada por um belo pôr do sol amazônico. O repórter pensou em todas as coisas que tinham acontecido nas últimas vinte quatro horas. Era para ser apenas mais uma matéria de um minuto e meio no máximo, mostrando um encerramento de um festival de artes cênicas qualquer, se não fosse o assassinato de um ator nos bastidores após a cerimônia final e o pior de tudo, logo um dos grandes vencedores da noite.
“Eu não quero saber se você não cobre a área policial, eu quero que você esteja por dentro de cada detalhe desse caso”, o berro que o editor-chefe dera naquela manhã na redação vinha em flashes na cabeça de Hugo. “Afinal, você estava na cena do crime, Rossi. Fora que conhecia o morto, não é verdade?”.
As palavras que o seu editor-chefe falara na reunião de pauta do jornal ainda ecoavam nos pensamentos do repórter, que estava confuso com tudo o que tinha acontecido. Uma coisa mexia mais ainda com ele: a verdade que o seu chefe havia posto no final da frase. Hugo Rossi conhecia o ator brutalmente assassinado naquele teatro.
“Victor Vaz de 24 anos estava acompanhado de sua namorada Lea Vasconcelos, de 22, que é produtora da companhia de teatro do casal e também sua companheira de palco. A jovem conseguiu escapar com vida. O atentado, conforme esclarecido pelos policiais, foi praticado por um assassino contratado, segundo depoimento da vítima que continua viva”, disse Hugo enquanto olhava atentamente para a câmera, o produtor ao lado do cinegrafista fazia sinal de que estava indo tudo bem.
O âncora do jornal, que estava no estúdio da TV naquele momento, iria fazer mais algumas perguntas sobre o caso e logo depois pediria para a produção colocar no ar o vídeo da matéria completa que continha a lista de suspeitos até aquela noite. Rossi estava nervoso, era sua primeira vez em um link ao vivo para o telejornal da emissora, ainda mais o telejornal noturno, que era assistido por todos da cidade. Mantenha a calma, você está crescendo, pensou ele.
“Olha, a polícia falou com a nossa produção, mas disse que ainda está investigando o caso. O crime se torna mais complexo por ter sido praticado por um terceiro elemento, o assassino de aluguel. Mas, estivemos na tarde de hoje no hospital e conversamos com exclusividade com a sobrevivente, a namorada do jovem morto”, essa era a deixa para a produção colocar no ar a matéria com uma entrevista de Lea Vasconcelos. Hugo correu até a van da produção para conferir como ficou a edição final.
“Cara, fomos os únicos que conseguiram falar com ela até agora, você é demais”, dizia o produtor entusiasmado pelo furo, enquanto Hugo entrava na cabine de edição móvel da TV.
Rossi contou com a amizade que tinha com Lea, feita logo no começo da cobertura de eventos culturais. Entretanto, naquela manhã após o crime, ele não pensava que fosse conseguir autorização pra entrar no hospital e gravar a entrevista com ela, mas graças aos seus contatos, pôde entrar no quarto hospitalar, que naquele momento aparecia na televisão da cabine.
Uma frágil Lea, diferente daquela sorridente que ele havia conhecido meses atrás era enquadrada pela câmera. Seus cabelos escuros estavam desalinhados, sua pele estava pálida, igualmente aos seus lábios que se mantinham ressecados. Ela estava na maca dando o seu depoimento ao repórter, seu rosto tinha três hematomas, fora os arranhões espalhados pelo corpo.
“O médico me disse essa manhã que perdi o meu bebê, no fim do mês eu faria três meses de grávida. Nós estávamos tão felizes com tudo”, dizia Lea ao repórter.
“Tudo aconteceu de forma estranha, bebemos alguma coisa naquela noite que nos fez apagar. Uma hora, estávamos no jardim externo do teatro, comemorando com amigos e rindo. Outra hora, acordamos numa sala vazia que fica atrás do palco, foi quando resolvemos sair de lá...”. Ela hesita e olha para a câmera séria, as palavras parecem se engasgar em sua garganta.
“O bandido, seja lá o que ele for, atacou Victor e me fez desmaiar, quando eu acordei estava naquele salão que fica na parte de cima, o que chamam de Salão Nobre. Foi quando ouvi Victor gritar e corri para alcançá-lo”. Lea começa a chorar e a matéria passa para uma narração de Hugo agora sobre o que foi achado na cena do crime.

♦  ♦  ♦  ♦  ♦

Em outro ponto da cidade, Lea estava sozinha no seu quarto de hospital, assistindo ao noticiário, quando a reportagem começou a mostrar as pessoas que estavam sendo interrogadas pela polícia. Eram três suspeitos até o momento, dizia o jornal. Foi quando entrou uma arte gráfica que começou a mostrar as fotos dos investigados na tela.
“Alice Moraes foi interrogada pela polícia, pois mantinha um caso extraconjugal com a vítima. Já Ricardo Ferraz era ex-amigo de Victor Vaz e já tinha feito declarações públicas que queria a morte do colega de atuação, devido uma briga nos bastidores. O último suspeito é o roteirista, Guilherme Müller, que esse ano foi banido pela organização do festival após acusar o casal Lea e Victor por plágio pela peça que eles concorriam na premiação do evento”, narrava Rossi.
Lea pegou uma pílula do seu remédio e tomou com um copo de água. Ao encostar sua cabeça no travesseiro lembrou de tudo que tinha passado na noite anterior. Pensou consigo mesma, acho que não deixei você gravar toda a história, não é Hugo?
“A peça, Uma Tragédia Com Chifres, de autoria de Lea Vasconcelos, foi campeã dessa edição do festival, levando assim o prêmio de 100 mil reais para a companhia Streeteatro do casal, que começou atuando pelas ruas da cidade”. Hugo continuava a ecoar em uma voz metálica pelo quarto de hospital, o som da TV começou a ficar distante nos pensamentos da namorada do jovem morto.
“Por incrível que pareça, o enredo da peça tem algo similar com o que aconteceu esta madrugada. No roteiro, um casal é atormentado pelo diabo até que o marido é arrastado para fora de casa pelo ser folclórico para pagar pelos seus pecados. No fim da comédia, o diabo nada mais era que a amante que queria fugir com o marido da outra. Na vida real, o final da história foi bem mais trágico”, e assim terminava a reportagem de Hugo Rossi sobre o crime.
Lea queria esquecer o mundo por um momento, mas seus pensamentos não a deixavam. Que inferno! A jovem atriz então se levantou da cama e resolveu fumar na janela e foi quando todo o terror daquele assassinato lhe assombrou a memória.



Na madrugada anterior, Lea e Victor em trajes de gala, estavam no salão nobre do Teatro Amazonas com uma terceira companhia nada agradável.
“Você sabe os segredinhos do seu namoradinho, não sabe, minha donzela?”, dizia o assassino enquanto apontava sua arma para o casal amedrontado, sua voz ecoava pelo teatro vazio.
Lea ignorou a pergunta do cara mascarado a sua frente, ele usava a máscara do drama conhecida como símbolo do teatro mundo a fora.
“Pois, saiba que o seu Dom Juan, tem um caso há um ano com sua amiguinha de escola, Alice, você sabia disso? Ainda vai continuar na merda da minha frente para defendê-lo?”, disse o assassino com a arma ainda em punho direcionada a Lea, que estava posicionada a frente de Victor para levar o tiro primeiro se fosse necessário.
Ela virou lentamente para Victor, sem se importar se poderia ser atingida por uma bala a qualquer momento, só queria olhar no rosto do seu namorado e saber se o adultério era verdadeiro. Victor lagrimava de nervosismo e arrependimento, até despencar aos pés da moça, agarrando a parte debaixo do vestido dela. Ele dizia alguma coisa sobre ter sido um erro, uma fraqueza, que já tinha tentado abandonar a amante, mas a mesma não o deixava fazer aquilo.
“Meu amor, eu ficava com ela por ameaças, eu não queria lhe ver sofrer por um erro meu, eu não sabia como acabar com aquilo. Me perdoa, eu te amo, te amo muito”. E ele continuava na sua súplica aos prantos. “Lea, por favor, não escute esse miserável. Meu amor, eu sei que você já ficou com o Ricardo, eu sei, que você me traiu, então me entenda dessa vez”.
“Mentira, eu nunca fiquei com o seu amigo, eu não sou uma sem-vergonha como você, que dizia que me amava. Você é um cretino”, respondeu ela ao ultraje, tentando tirar Victor da aba do seu vestido em vão.
“Nós brigamos por causa de você, amor. Ele sabia que eu ficava com a Alice, ela contou pra ele. Ele roubaria você de mim”, balbuciava o ator de joelhos, despido de qualquer segredo.
“Por isso você não deixava ele se aproximar de mim e resolveu se afastar dele? Foi por isso, não é? Quem sabe ele me desse o valor que eu não recebi de você?”, gritou Lea com uma amargura no coração de vê-lo arrependido pelo o que fez, quando já era tarde demais.
“Ah, que lindo o amor teatral. Se eu namorasse um ator como você, minha donzela, pensaria duas vezes antes de acreditar nessas lágrimas de crocodilo desse atorzinho de bordel”, dizia o mascarado.
Lea olhava horrorizada para Victor. Os olhos do ator estavam vermelhos pelo choro, foi quando ele se virou cheio de raiva para o assassino e resolveu confrontá-lo.
“QUEM VOCÊ PENSA QUE É?”, foi o que Victor gritou quando correu em direção ao cara armado. O mascarado atirou então em dois lustres do Salão Nobre. Um estava muito próximo de Lea, o que a fez cair no chão. O baque dos lustres no piso fez uma peça estilhaçar um dos espelhos na parede.
“Victor, Victor”, gritava a atriz, quando viu seu namorado sair pela porta e correr, enquanto o assassino ia atrás dele. Sem forças para levantar, ela contemplou a musa pintada no teto do salão, segurando louros entre as nuvens, conhecida por acompanhar qualquer visitante com o olhar, uma ilusão de ótica pintada pelas mãos de Domenico de Angelis. Lea, então, se sentiu julgada por aquele olhar: seria ele de pena ou de espanto? Ao seu redor, pedaços do espelho quebrado refletiam ‘O Olimpo dos Artistas’ em fragmentos, a bela obra que retratava um tranquilo e harmonioso céu na abóboda do salão nobre. O céu está caindo, meu céu está caindo.
Poucas horas atrás, o casal aproveitava a distração do encerramento da cerimônia que acontecia no jardim externo, para adentrar ao teatro às escondidas. Conseguiram chegar ao camarim, onde fizeram amor na bancada em frente ao espelho, derrubaram todas as maquiagens, todos os objetos deixados ali, para realizarem sua fantasia sexual.
“Sabe quem não deve nada feliz uma hora dessas?”, falava Lea sentada na bancada olhando para Victor em pé. “Guilherme Müller”, ambos riram.
“Ele deve estar querendo nos matar agora, não é mesmo?”, disse um inocente Victor que estaria morto dentro de algumas horas, enquanto levantava o vestido de Lea e ela tirava o smoking dele. Ao seu lado deixaram o troféu que tinham ganhado no festival.
“Você está tão sexy de vermelho, minha princesa”, disse ele ao parar um beijo entre os dois e fazer ela notar aqueles lábios borrados de batom. Os gemidos de prazer que Lea dera no camarim seriam tão diferentes dos que ela daria duas horas mais tarde, quando ela seria empurrada da escada do segundo andar do teatro e apagaria completamente.

♦  ♦  ♦  ♦  ♦

            Já eram duas da manhã, fazia exatamente vinte quatro horas que o crime tinha acontecido. Lea já estava dormindo, quando alguém entrou no seu quarto no hospital. A roupa branca que aquele vulto trajava era a única coisa que refletia na luz que vinha da janela.
“Hora do remédio”, disse a voz para despertar Lea.
“Você me garante que isso não é veneno? Garante que isso vai me deixar bem, depois que tudo isso passar?”, questionou Lea olhando os olhos do enfermeiro, que se escondiam por detrás da máscara médica.
“Você ainda duvida de mim, minha donzela?”, disse o mascarado, que recebeu um sorrisinho dócil de Lea, enquanto ela bebericava uma poção esverdeada.
“Tivemos um dia longo, não foi?”, perguntou Lea ao falso enfermeiro, enquanto tentava esquecer o sabor horrível que aquela poção deixara na sua boca.
O mascarado já estava sentado na poltrona em frente à maca, retirando a máscara médica que o irritava. Quando admirou Lea arrumar seus cabelos em um coque, dentro de alguns instantes aquela poção faria efeito. Ele tirou da sua jaqueta uma resma de papel dobrado e começou a ler.
“Até ontem eu não entendia porque você tinha trocado o final dessa peça, sabia?”, disse o assassino enquanto folheava o script de Uma Tragédia Com Chifres. “Com o final original, ela era uma trama espetacular”.
“Coisas do Victor. Falou que uma comédia era o que faria mais sucesso com o público em geral. É o que essa merda de plateia está preparada para receber, eles não têm saco de entender um drama. A vida deles já é uma merda, assim como era a minha”, a atriz então suspirou de alívio, enquanto falava friamente, diferente daquela jovem que aparecia na reportagem da televisão, ela chegou até a janela e acendeu seu cigarro.
“Você já pensava em matar seu namoradinho, fazia algum tempo, não é? Essa peça você escreveu contando a sua história, não foi?”, indagou o vulto atrás de Lea.


“Guilherme Müller, aquele vigarista safado, falou a mesma coisa quando eu dei para ele revisar a peça. Foi daí, que o idiota surgiu com a balela de que eu tinha plagiado a peça dele, um completo babaca, não é?”, ela deu uma tragada e olhou de novo para o enfermeiro no quarto. “Como ele sabia que no final a mulher atormentada pelo diabo resolvia matar o marido e deixar que o diabo levasse o seu homem ao inferno, eu resolvi mudar o final da peça”.
“O nosso teatrinho foi perfeito ontem a noite, não foi?”, o assassino já percebia que Lea estava ficando meio fraca.
“Os dois tiros no pé do cafajeste adúltero e eis o grand finale: tocar aquela arma e ter o prazer de detonar aquele coração que um dia eu tanto quis que fosse só meu, mas não foi”.
A atriz lembrou-se do olhar assustado de Victor na noite do crime, enquanto ele estava estirado ao chão do teatro pedindo por socorro, as duas pernas do ator sangravam. Foi quando o assassino concedeu a arma cordialmente a sua donzela.
“Lea, meu amor, o que você está fazendo? Pelo amor de Deus!”, proferiu Victor.
“Vá pro inferno com esse seu draminha de merda, seu hipócrita!”, gritou a namorada antes de consolidar sua vingança com duas balas encravadas no tórax do ator. “Pense bem antes de trair uma mulher, como eu”, disse Lea ao mascarado, “comigo é tudo ou nada”.
“Ainda bem que a minha praia é outra”, respondeu o mascarado, ambos riram cinicamente.
Lea voltou seus pensamentos ao hospital onde ela estava, sentia-se sonolenta e se encaminhou a maca onde deitaria, quando resolveu perguntar ao assassino o que lhe aconteceria depois.
“Como Julieta sem o seu Romeu, você irá dormir, ser dada como morta e é quando eu irei lhe resgatar, minha donzela”.
“Você fez um ótimo trabalho hoje me livrando da lista de suspeitos, eu fui a primeira a ser interrogada pela polícia”, os olhos de Lea já estavam pesados.
“Que é isso, somos amigos, não somos? Eu estarei aqui lhe esperando para estourarmos a grana desse festival. Durma bem, minha donzela”.
Lea já escutava a voz do seu cúmplice distante, como se ele ainda estivesse falando pela televisão. Depois de alguns minutos, Hugo saiu do quarto.
Já eram três horas da manhã quando Hugo tirou seu celular do bolso e foi direto na agenda, apertou em ligar no contato salvo como: meu amor.
“Alô, meu anjo, trago péssimas notícias”, dizia Rossi em tom de deboche.
“Adoro suas péssimas notícias, estou te esperando aqui em casa”, respondeu Guilherme Müller no outro lado da linha.
“Sua Julieta já descansa em paz com o seu Romeu”, disse o jornalista.

“O espetáculo tem que continuar, meu amado, até mais”.



O conto "O Teatro" integrou a antologia Folhas Mortas (São Paulo, 2014), publicada pela Editora Livrus e organizado pelo autor Lajosy Silva, resultado do projeto Clube do Autor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O livro conta com as escritas de jovens universitários apresentadas em 15 contos. A temática dessa edição girou entorno de histórias sobre crimes e mistérios.  
As 5 consequências de cruzar o caminho de alguém.

 

Quatro ações são desencadeadas ao encontrar uma pessoa: doação, conhecimento, aceitação e memória. Entretanto, existem dois tipos de pessoas que desencadeiam uma quinta ação: o arrependimento. Esses dois tipos são os amados e os odiados.

A doação surge a partir do momento que ambas as partes doam seu tempo ou espaço para o convívio com o novo indivíduo, compartilhando estes os momentos vividos que trazem em si, colaboram espontaneamente para o conhecimento que o outro terá de si.

A partir do conhecimento, a aceitação pode ou não prevalecer. Se a aceitação prevalecer, os indivíduos terão lembranças que ao longo do tempo podem tanto fortalecer a aceitação como enfraquecê-la, exigindo assim mais doação e mais conhecimento sobre o outro. Se a aceitação for negativa, a rejeição é imediata e as lembranças serão amargas, desprezíveis e irrelevantes. Mas, nada torna a memória do encontro irrevogável, tanto para o bem como para o mal.

Justamente pela natureza irreversível das quatro ações que um ser humano desperta em nós ao cruzar nosso caminho, que surge a quinta ação, chamada de arrependimento. O arrependimento nada mais é do que uma ação que com todas as forças tenta anular o tamanho das primeiras ações. Ela surge somente quando encontramos dois tipos de pessoas aquelas que amamos e aquelas que odiamos.

O arrependimento despertado pela pessoa amada é aquela vontade de querer que a doação que se deu ao outro fosse maior (além da que se recebeu também) e que o conhecimento sobre a vida do outro fosse mais abrangente, fortalecido com riqueza de detalhes e em todos os níveis possíveis. Todas essas ações são alimentadas pela aceitação que se tem pelo outro de forma desproporcional e pelas lembranças que se traz na memória.

O arrependimento despertado pela pessoa odiada surge por querer revogar o tempo doado ao indivíduo que não valeu a pena e que o conhecimento sobre a existência do outro jamais existisse. A aceitação nesse caso foi um mero engano de avaliação, quando se devia ter dado uma sentença de rejeição que passa a alimentar o indivíduo. A memória por fim fortalece essa fúria fornecendo lembranças irrevogáveis dos momentos compartilhados.

Sendo assim, nenhuma pessoa passa ilesa por nosso caminho, sempre deixando para trás tais consequências em nossas vidas, sejam essas consequências inconscientes ou não, mas elas existem e estão ali armazenadas em nossa alma. Pense bem na próxima vez que cruzar o caminho de alguém ou permitir a chegada repentina de um novo indivíduo em sua vida. 
Conto: O Hotel Todort, de Leandro Leit


Nada se compara a emoção de você ter algo encadernado, publicado e lançado no mercado, mesmo que seja um conto que faça parte de uma coletânea, tudo faz você se sentir realizado e começar a dar passos lento rumo a vida de escrever histórias para contar aos outros. 
Em 2012, através do projeto que tem na minha universidade participei do Clube do Autor, cujo tema daquele ano eram histórias fantásticas. Ainda eu tivesse inúmeras histórias esboçadas, engavetadas e engatinhadas, nenhuma delas se encaixava na delimitação de 5 páginas exigidas no projeto, o que me fez eu compor uma história completamente nova e inédita para publicar. Daí me surgiu a ideia de um Hotel que hospedasse fantasmas com pendências no mundo dos vivos e eis que surgiu o conto do Hotel Todort. 
O nome da história vem do alemão e é explicado na história. A inspiração veio das aulas de alemão que eu tinha e me deixavam fascinados pela língua alemã, uma pena não ter formado turma para os períodos mais avançados do idioma na época o que fez eu parar de praticar o meu "deutsch". 
Hoje, 2 de novembro, é o dia dos finados e resolvi compartilhar essa história publicamente e mostrar um lado diferente de encarar a data. Em o Hotel Todort os personagens passam a entender que a morte pode trazer respostas e reflexões de como lidamos com as memórias de entes queridos de uma forma meio cômica. 

"Não sei o porquê, mas passamos a amar as pessoas muito mais depois de mortas e eu tive uma afinidade maior com a convivência póstuma de meu pai", diz o personagem principal.


HOTEL TODORT

 Por Leandro Leit

O meu pai havia morrido há um ano. Minha mãe desolada fora passar longas férias na casa de uma irmã. Minha vida era dividida entre a república e as visitas constantes que eu deveria fazer ao Hotel Todort para resolver uma grande questão.
Isso tudo começou na semana seguinte ao enterro do meu pai, que simplesmente havia dormido para sempre depois de chegar exausto do trabalho e falar com o dom da premonição para minha mãe.
“Estou morrendo de casanço, querida”, tombando na cama.
Foi a deixa para nunca mais ver aquele homem de pé e recolocá-lo em um singelo caixão que lhe seria o colchão eterno, não muito confortável já que estava encharcado com as lágrimas de todos nós e da principal cachoeira que nascia dos olhos de minha mãe. Seria um triste fim e um luto grande se estenderia em nossa casa, se no dia seguinte não fôssemos visitados por Laure, a suposta amante de meu pai, que possuía um andar provocante  e um documento aterrorizante, onde o senhor Aurélio Fernandes,  o falecido do dia anterior,  lhe passava as posses de nossa casa. O que fez minha mãe gritar bem alto, um palavrão mal-educado, enquanto se erguia do sofá, com o papel em punho, que aqui será substituído por:
“Safado.”
Um adjetivo que valeria tanto pelo adultério cometido, como pela transição da casa à mulher participante de tal movimento bigâmico.  Nessa mesma noite, não sei se impressionado pelo acontecimento do dia ou pelos sonhos serem realmente irracionais e terem um roteiro tão medíocre quanto os filmes que passam de madrugada nos canais de televisão, recebi uma visita paterna e completamente patética em um desvaneio noturno.
“Filho, preciso de sua ajuda, não consigo ter paz.”
O ambiente era branco e mesmo que não fossemos fashionistas e exclusivamente minimalistas, branco era a única cor que trajávamos.
“O que aconteceu com sua mãe e com você não passa de um golpe daquela mulher.”
Eu sabia que várias palavras iniciadas em P que poderiam ser adicionadas àquela mulher, mas a única que consegui exclamar, ofendia o pobre nome de um animal do submundo aquático.
“Que piranha!”
Pela manhã, despertamos eu e minha obsessão em desmascarar aquele golpe, o primeiro passo seria investigar como ela conseguiu fraudar tal documento. Minha mãe, encaixotava livros e copos em folhas de jornais, enquanto atendia aos telefonemas e relatava o polêmico epílogo da história de meu pai.
Uma semana se passou e minhas investigações não estavam indo muito longe, foi quando, numa noite fria, a janela do meu quarto se rompeu com um vento, fui fechá-la rapidamente e ao voltar para a cama, que era meu divã particular para os meus pensamentos cotidianos, me deparei com uma feição que não era de um psicólogo para julgar minha paranoia tida após um sonho, mas sim, a de  meu pai em carne e... quero dizer espectro e plasma, seja lá qual for a matéria que componha os fantasmas.
“Estou completamente vetado de seguir minha viagem adiante, tenho que resolver esse problema e ficarei por aqui, até solucionarmos isso tudo.”
Não sabia se gritava, se aquilo tudo era um sonho de novo, fiquei petrificadamente mumificado no meio do  quarto, enquanto um rosto pálido e familiar me falava.
“Juro que seremos rápidos nisso tudo e ainda tenho que limpar meu nome com sua mãe. Mas, por ordens do mundo do além não posso me hospedar nessa casa.”
Meu coração palpitava igualmente a uma panela de pipoca em cozimento. Desde aquele dia, passei a visitar o Hotel Todort, um hotel barato no centro da cidade e instalado num prédio mal assombrado.
“Eu mesma já morri aqui nessa cozinha, meu querido. A polícia nunca solucionou o meu caso”, dizia a cozinheira enquanto preparava um prato lamentável. “Isso é o que alimenta os fantasmas, a lamúria de uma família, uma gota de lágrima, um pouquinho de agonia, desesperos e voilà”.
Os hóspedes eram todos falecidos com causas pendentes, já que o hotel era uma falência, devido a toda energia negativa contida ali. Fora construído por um alemão que conversava com os espíritos, até nomear o lugar de Todort, o lugar da morte. Ele morreu e partiu sua viagem ao além tranquilamente, afinal tinha seus créditos com os espíritos de lá, mas o lugar fora ocupado por outras pessoas, onde todos acabavam morrendo misteriosamente.
“Filho, as assinaturas foram falsificadas por ela mesma e o documento também.”
Com os fantasmas penetrando as paredes e revirando papeis, descobrimos todo o esquema do golpe, eu mesmo entrei na casa de uma forma sobrenatural e me apossei das provas. Tudo estava ao meu favor e sempre mandava notícias para minha mãe, que mesmo se tivesse sua casa de volta, não perdoaria meu pobre e fantasmagórico pai pela traição. Como estava na faculdade, me mudei para uma república com cinco outros estudantes e nossa brincadeira do copo vinha acompanhada de apostas e inexplicavelmente eu conseguia prever todas as respostas, até não deixarem mais eu tocar no copo por acharem que eu roubava dessa forma baixa e vulgar, quando na verdade tinha um apadrinhamento do além.

Não sei o porquê, mas passamos a amar as pessoas muito mais depois de mortas e eu tive uma afinidade maior com a convivência póstuma de meu pai. Aos domingos passeávamos pelo cemitério juntos com outros fantasmas que achavam suas sepulturas seus próprios monumentos e faziam até concurso delas, o trofeu era sempre uma vela de sete dias.
Quando finalmente conseguimos reunir as provas, descobrimos que a golpista da amante tinha conseguido arrastar  um juiz para o altar e se casaria em breve com ele. Mas o que me surpreendeu ainda mais, foi que um dia antes do casamento, a mulher entrou no quarto e me pegou vasculhando os seus armários. Assim que me reconheceu com os papeis em minha mão, não teve outra escolha e soltou logo dois tiros rumo ao meu coração. E como todo criminoso clichê faz, ela fez questão de revelar o seu crime de ter matado envenenado meu bigâmico pai o que o fez sucumbi naquela fatídica noite do falecimento, com o dinheiro da venda da casa em mãos ela conseguiu viajar em um cruzeiro onde se aproximou do tal juiz. Após isso tudo, me colocou em um saco preto qualquer, os assassinos deveriam pensar que ainda ficamos um pouco dentro do corpo até sairmos e rompermos as barreiras da carne e sacos pretos, se vocês não sabem, deixam tudo muito abafado e quente, a sorte era que eu não respirava mais.
Com a minha viagem ao além cancelada por mim mesmo até eu me vingar da minha dama da morte, fui me hospedar no Hotel Todort, onde fui informado que meu pai já havia partido, pois seu caso havia sido resolvido e ele mesmo estava todo empolgado em fazer minhas boas-vindas no além-vida. Eu tinha um plano a ser executado e logo o coloquei em prática.
E foi na noite seguinte que ouvimos algumas vozes vindas dos corredores inferiores.
“Que brincadeira é essa, amor? Por que passaríamos, nossa lua-de-mel aqui?”
“Eu não sei, deve ter tido algum engano, mandei arrumarem essas coisas por mim. Iríamos apenas descansar aqui, pra depois fazermos nossa viagem, minha Laurezinha”, foi o que disse o velho baixinho e careca abraçando a mulher completamente indignada em seu vestido de noiva.
“Vamos logo pra bem longe daqui, meu baixinho”, disse a amante que agora era a recém-casada do juiz. De repente tudo ficou escuro e em algumas horas vários flashes, lanternas e sirenes mergulharam o edifício em luzes vindas de todas as partes.
A cozinheira do hotel, foi a primeira a acordar no dia seguinte e ficou decepcionada por não aparecer na foto da capa do jornal. Eu atrás dela estava pronto para partir.
“E eu tava bem do lado desses dois corpos aí nesse chão”, foi quando eu alcancei a porta, ficando ao seu lado e fazendo-a exclamar bem alto. “Assim o senhor me mata, parece que nem visagem”. Foi o tempo de ler a manchete do jornal e soltar uma gargalhada fatal, que trocadilho barato afinal, hein?
FIM

O conto "Hotel Todort" integrou a antologia Folhas Fantásticas (São Paulo, 2012), publicada pela Giz Editorial e organizado pelo autor Lajosy Silva, resultado do projeto Clube do Autor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O livro conta com as escritas de jovens universitários apresentadas em 35 contos. 
Sinopse: Folhas Fantásticas...Tudo pode começar com uma branca flor coberta por chuva. Alguém que caminha em uma estrada e encontra um trono de pedra. Pode ser uma menina chamada Eliza ou um rapaz, Leonardo, em sua experiência de quase vida. Podem ser folhas que falam de um boto, um curupira, Laura e sua boneca, Nicola e um segredo. Pode ser uma última pintura, um hotel Todort com seus fantasmas, tudo em família e entre nós. Uma visita, hora, um passado, o desespero de irmãs. Alguém que se esconde em uma casa de árvore, um sobradinho, fugindo de um tribunal. Um louco que escreve em cadernos, que desja voar, livrar suas amarras. Alguém que já viu isso antes em uma expedição. Um casal, C & E em uma floresta, em busca de eternidade para Pierre, sozinho na multidão ou o começo do fim entre vampiros.

P.S.: As fotos que acompanham o conto são do Castelinho, um prédio que funciona hoje como museu localizado no bairro do Flamengo no Rio de Janeiro. Numa viagem que fiz por lá, resolvi visitar o local e fiquei encantado pelo lado gótico e sombrio que o prédio tem, vale a pena conferir. 
5 músicas novas para curtir a velha fossa de quem leva um fora

Atenção, se você está na bad vibe do amor, aquela bad trip que a gente fica tendo por horas dentro do quarto após o fim do namoro, do pega, da ficada, etc... esse post pode ser perigoso para você e ao mesmo tempo nem tanto, pois muitas das músicas que eu listei aqui são do fim com gostinho de quero mais, te quero de volta, volta pra mim, que vida é essa, sabe. 
É, não sei quanto a vocês, mas em relação à mim logo após uma decepção, a gente busca logo músicas pra afundar de vez na dor, na solidão, na revolta e etc. Por isso resolvi listar 5 músicas lançadas este ano para você atualizar sua playlist de fossa, que com certeza deve está repleta de canções e grandes sucessos de Alcione, Só Pra Contrariar, Molejo, Reginaldo Rossi e todos esses artistas de estilos variados que a gente não se importa em ouvir quando o assunto é fossa e claro, eles são clássicos da dor de cotovelo, mas saiba que tem muita gente nova colocando em música essa fase chatinha da vida. Pega o lencinho, agarra no copinho de vodka pra afogar o coração e vem comigo.

TOP 5 DA BAD TRIP DA PAIXÃO 



#1 ALMA SEBOSA - JOHNNY HOOKER

Sabe quando o relacionamento acabou recentemente e você fraco pega o celular, manda mensagem e fica revoltado sem ter uma resposta da pessoa ou ela só te procura quando está bêbada por aí, te responde depois de semanas e lhe obriga a conviver com a indiferença da mesma? Então, essa música do Johhny Hooker expressa essa revolta e é linda. É aquela canção para  justamente fortalecer aquela ideia de que "tá na hora de deixar essa história pra trás e seguir em frente, coração".


#2 POR INTEIRO - MARJORIE ESTIANO

Nem todo mundo reage da mesma forma ao término e quando o assunto é amor, a gente descobre habilidades nossas para sobrevivência que nem sabíamos ter (ou até mesmo tendências de riscos em que nos metemos nessas situações). Marjorie Estiano voltou com um novo álbum este ano (este trocadilho foi patrocinado por A Praça É Nossa) e músicas que marcam o coração como a reinterpretação de "Ta Hi" de Carmen Miranda. 
Em "Por Inteiro", o single de lançamento do novo CD, Marjorie fala daquele amor doentio em que mesmo com o término a pessoa quer lutar até o último segundo pela volta, descobre que é capaz de ficar na porta da casa da pessoa, que vai ignorar as saídas e ficadas que possam está rolando para tentar reatar o relacionamento perdido. É quando a pessoa perde o orgulho e se entrega por inteiro ao amor sem se importa com o que os outros vão falar. 



#3 SETEVIDAS - PITTY

Com o mesmo nome do novo álbum da Pitty, o single de estreia trouxe uma cantora fortalecida e que mostra que o tempo só lhe fez bem. O rock aqui expressa o quanto existem situações na qual parecemos gatos, quando todos acham que caímos e morremos, eis que meses depois de confinamento em casa, curtindo aquela bad vibe, a gente resolve sair, voltar às festas, entrar na academia e enfrentar de frente a nova vida que nos espera (de solteiro, sim, quem sabe). É aquela parte que assumimos que o que rolou, rolou e é hora de sepultar e fazer uso das 3 vidas que ainda nos restam pra gastar.




#4 QUERO SER SEU CÃO - THIAGO PETHIT

Aqui poderia se encaixar muito bem outra música nova do Pethit que é Romeo, porém gosto mais da batida e animação, necessária nesse momento de fossa, que "Quero Ser Seu Cão" nos oferece. Essa música pode ser escutada quando terminamos o relacionamento e ainda assim continuamos feito um cachorrinho atrás da pessoa amada, como também pode ser usada por aquele amor platônico que te deu um fora ou que você entendeu o fora quando foi stalkear as redes sociais dessa paixonite e viu que o status de relacionamento foi alterado para sério. Daí pronto, é uma melancolia sem fim, o chão some, a gente liga, manda whatsapp para os amigos e amigas falando da perda da paixão que talvez existisse mais na nossa mente que em qualquer outro lugar. Então, marcamos logo um bar, um cinema, uma praia, uma balada para ver se desestressamos logo dessa perda. 
Às vezes, ficamos ali esperando a fila da pessoa andar, para enfim ser o novo amor e ficar aos pés dela como um cão, como sugere a música.


#5 PROBLEM - ARIANA GRANDE

A popzinha "Problem" chega para fechar essa lista e nos traz a reflexão que se o relacionamento tava ruim, tava mesmo na hora de acabar e talvez seja menos um problema na sua vida. Mas, até chegar essa conclusão mantida no refrão da música, Ariana Grande, assim como boa parte de nós, fica refletido se deve deixar o ex voltar e se questionando porquê ainda gosta tanto assim do ser. 
Iggy então entra na parada fala que talvez ainda fique pensando mesmo nessa pessoa, mas talvez esse amor seja mais em pensar e idealizar a pessoa, do que realmente conviver com ela, porque quando você vai para a realidade, percebe que ela frustra os seus planos de ser aquela pessoa que você pensou que ele ou ela poderiam ser e no final nenhuma promessa prevaleceu e foi tudo por água abaixo ou lágrimas abaixo ou copos de vinho virados goela abaixo ou...


Se você chegou até aqui sem ter pego no celular e visto a última visualização da pessoa amada no whatsapp, nossa você tá de parabéns. Se mandou mensagem, ligou desesperando que nem a Marjorie em Por Inteiro, I feel you, bro. do português eu te entendo. Se nesse meio período conseguiu reatar o relacionamento, segura o fôlego e o forninho e seja o que Deus quiser. 

Imagem meramente ilustrativa de internautas após ler este post


FAIXA BÔNUS: CAN'T REMEMBER TO FORGET YOU - SHAKIRA

Sabe quando você aparentemente entendeu o recado, aceitou a situação, deitou na cama pensando "amanhã vai ser um novo dia" e quando acordou olhou pro lado da cama e puts lembrou de ciclano ou fulano? Então, Shakira e Rihanna me parece que já passaram pela mesma situação e falam do quanto não conseguem esquecer uma pessoa que já deveria ter sido deixa no ontem há muito tempo. 






Resenha Literária: Maze Runner - A Prova de Fogo, de James Dashner


Um belo dia olhei para a programação do cinema e com o tempo livre para assistir alguma coisa somado ao horário de exibição mais próximo do cinema, resolvi entrar e assistir Maze Runner - Correr ou Morrer, sem nunca ter ouvido falar na série, exceto por ter visto o trailer algumas semanas antes e ter perdido o fôlego com as cenas do labirinto e não fiquei sem fôlego somente no trailer, o filme inteiro é vertiginoso e é uma surpresa a cada minuto até o momento final. 
Com os créditos finais subindo, não tive dúvidas: tinha que comprar o segundo livro da série. Por que tal desespero? Com o final do filme de uma forma tão estrondosa e aquele mundo pós-apocalíptico que me foi apresentado, eu não aguentaria esperar mais um ano até ver a adaptação da segunda parte. 
Com isso comprei o livro, no início de outubro e as primeiras vinte e cinco páginas eu mastiguei ao longo de semanas pois estava cuidando da organização do meu aniversário e outras coisas. Então, depois desse período consegui devorar o livro em 3 dias, chegando a ficar até de madrugada acordado sem conseguir largar a obra num capítulo calmo onde eu pudesse colocar minha cabeça no travesseiro e não ficasse pensando: e o que vai acontecer com Thomas? 



RESENHA

Em A Prova de Fogo (The Scorch Trials), quando todos os clareanos achavam que estavam sãos e salvos, a organização CRUEL lhes dá mais uma rasteira no enredo, fazendo com que o mundo de todos caia e os desafiando a uma nova missão de sobrevivência e cura. Antes disso, Teresa, a única menina do grupo desaparece e no lugar dela nos é apresentado um novo personagem chamado Aris, com a chegada de Aris ficamos sabendo da existência de um segundo grupo formado por meninas que viveram em um segundo labirinto e passaram pelas mesmas provações até conseguirem escapar da clareira, sendo Aris o único garoto entre elas (situação semelhante a de Teresa). 
Nesse momento da história, todos os personagens começam a perceber que o CRUEL qualificou e destinou cada um deles a ser uma coisa nessa nova etapa: traidor, líder, aquele que tem que ser eliminado, etc. 
Os Cranks, criaturas que eram humanos que acabaram sucumbindo ao Fulgor (a doença mortal da história), surgem e acabam mostrando a gravidade do vírus (são tipo zumbis; espero ansiosamente a adaptação para as telonas para ver se o visual dos cranks me agrada e quem sabe todos nós teremos uma nova opção de fantasia de Halloween para o ano que vem, hein galera?). Uma das cenas mais assustadoras desse início também é um refeitório repleto de corpos mortos e degolados surgindo pelo caminho. 
Um representante do CRUEL, apelidado pelos clareanos de Homem-Rato, aparece para dar aos personagens a nova missão a ser cumprida: todos terão que atravessar o deserto e chegar até o Refúgio Seguro. 
Os percalços dessa vez são esferas metálicas flutuantes que degolam cabeças, o próprio deserto e suas condições devastadoras como fome, sede, calor, cansaço, etc. Nessa parte, eu fiquei assim muito preocupado com a higiene deles, pois higiene zero nessa história, papel higiênico não é mencionado e banho tampouco, desodorante então nunca ouviram falar nesse futuro. É algo que agrega a gente a perceber realmente como é agoniante a vida dos clareanos, viver suando no deserto sem poder se refrescar ou ter uma cama para dormir... Nossa! Pior vida, enfim.
No meio do caminho até o Refúgio Seguro existe a Cranklândia, uma cidade abandonada onde as pessoas infectadas com vírus do Fulgor são levadas para viver, ou melhor, sucumbirem a loucura até morrer. Nessa parte nos são apresentados dois novos personagens também: Jorge, um líder latino de um grupo de cranks recém-chegados e a bela, corajosa e inteligente Brenda. Brenda começa a formar um triângulo amoroso entre ela, Thomas e Teresa.


Tenho que confessar que enquanto eu lia eu imaginava o Jorge sendo interpretado por Antônio Banderas (sim, eu sei, é clichê imaginar que só ele pode fazer todos os personagens assim que falem um pouco de espanhol). Os dois personagens assustam, nos cativam e ao mesmo tempo nos deixam com uma pulga atrás da orelha sobre eles até o final (ou pelo menos eu, que aprendi a não confiar em nada, nem ninguém no mundo de James Dashner). Aliás, o autor deixa bem claro que nessa altura do campeonato não devemos confiar em absolutamente nada, nem no que os clareanos aparentemente acham que estão vendo. Doido né? Mas é CRUEL movendo seus planos. 
A história começa a ficar agoniante quando eles cruzam com demais cranks, se perdem na cidade, encontram o grupo das meninas do labirinto, até chegar ao Refúgio Seguro. A vida de Thomas corre perigo toda hora e parece que ele está destinado a morrer a cada instante.  

NOTA 8,6
Acertos:
- Leitura vertiginosa e de fazer nossa cabeça rodopiar sem deixar para amanhã o próximo capítulo.
- Novos personagens como os demais grupos e a nova situação do deserto. Ao contrário da clareira onde todos estavam aprisionados, no deserto eles estão livres, porém no meio do nada, fazendo com que tecnicamente continuem presos, é mais agoniante, afinal eles não tem a fazenda, seus abrigos, etc.
- A duvidosa Teresa que fica confundindo a nossa cabeça ao longo de todas as páginas, dando gás aos mistérios da história. 

Erros:
- Superexposição de sentimentos, pensamentos do autor, às vezes ele enrola demais numa descrição, nas sensações de Thomas, repetindo muitas vezes coisas que são óbvias para os leitores. Me agoniava, tiveram partes assim que eu via que ele ia ficar enrolando muito até eu chegar a próxima fala de personagem, que eu pulava e ia direto para a ação. 
- Ainda com essa superexposição, não temos ideia da natureza psicológica dos demais personagens e ficamos sem muitas explicações sobre seus modos de ser ou o que aconteceram com eles em momentos que ficaram sumidos da história.
- Um final de tirar o fôlego? Sim. Um final honesto com o leitor? Não. Eu acho que ainda que você faça uma saga movida ao suspense e a ação, você deve amarrar alguns pontos no fim de cada história até chegar a grande conclusão da obra no último livro. Eu achei um final bem covarde com o leitor, sabe, ainda que você queira amarrar esse leitor ao próximo livro, você tem que concluir a história que está sendo contada no livro em questão. Parece uma forma bem covarde de fazer o leitor ter que comprar o próximo livro e último que conta a história de Thomas e seus amigos para ter suas respostas. Não é justo, sérião. Quer deixar a gente preso ao próximo livro? Conclui a história desse que estamos lendo e num epílogo surge com uma situação que deixe um cliffhanger, ué.

SOBRE A ADAPTAÇÃO


Então, Maze Runner - A Prova de Fogo já está confirmado para estrear nos cinemas em 18 de setembro de 2015. A adaptação ainda está em fase de pré-produção e com isso alguns atores já estão sendo confirmados, devo ressaltar que fiquei bem feliz com as escolhas, a maioria surge da mesma forma que imaginei enquanto estava lendo o livro, tirando o Homem-Rato que eu imaginava ser mais velho e carrancudo.

Aiden Gillen interpretará o Homem-Rato, uma espécie de porta-voz do CRUEL
Jacob Lofland interpretará Aris
Rosa Salazar interpretará Brenda, uma crank recém-chegada

Giancarlo Esposito interpretará o líder-crank Jorge



Booktubers: resenhas literárias em vídeos


Recentemente descobri algo que estou fascinado em assistir em casa, no trabalho e a todo e qualquer momento livre: as resenhas de internautas, que são assim como eu e você, fissurados em ler livros. O mais interessante de acompanhar os vídeos dos booktubers, aqueles que postam no youtube suas críticas e opiniões sobre livros, é que você consegue compartilhar com eles as mesmas emoções (ou não) que sentiu enquanto lia o livro: aflição, revolta com o autor, shippar personagens, expectativas para adaptação e assim por diante. 

Com isso tudo explicado, resolvi listar os meus favoritos que encontrei nesse meio tempo. É, já cheguei a pesquisar no google uma top lista de booktubers para seguir e na minha busca eu não achei, então pensei, ué se eu precisei disso um dia, o mundo deve precisar também de algumas dicas. Confira agora os cinco melhores e mais interessantes canais de resenhas do youtube que encontrei no meio do caminho: 

#1 PAM GONÇALVES DO GAROTA IT


A Pâmela já tem uma longa estrada de críticas literárias na blogsfera, ela chegou a criar o vlog no youtube apenas para abastecer os posts do garotait.com.br, entretanto os vídeos tomaram proporções ainda maiores que as postagens do blog. 
O legal de acompanhar o canal (e olhem que foi o último que eu resolvi assistir) é que a Garota It tem um bate papo muito interessante com a tela, parece que está sentada com você conversando, contanto quem encontrou pelos eventos literários, mandando abraços, falando de curiosidades que ficou sabendo, como começou a ler aquele livro, etc... uma simpatia que realmente cativa qualquer visualizador de vídeos que foi parar por ali por acaso. O canal atualmente conta com aproximadamente 60 mil inscritos, vale a pena conferir. 
Guilty pleasure: as estantes infinitas que compõem o quarto da Pam, um dia ainda terei uma estante daquele jeito com tantos e tantos livros. Até cheguei a tuitar sobre isso um dia. Inclusive após passar uma madrugada inteira vendo as resenhas e dicas da Pam, no outro dia mesmo fui a Saraiva e comprei sete livros senão me engano e arrumei minha prateleira do quarto. Obrigado, Pam ;) 

#2 KLÉBIO DAMAS DO MUNDO PARALELO


O Klébio é um dos youtubers deste segmento mais engraçado e cativante da lista. Ele tem poucos vídeos ainda, mas o canal dele esse mês chegou a 5 mil inscritos e não para de crescer. Mas por que cresce tanto? Porque, o Klébio tem uma forma engraçada de encarar as críticas dos livros e não enrola tanto para falar o que achou, é isso e ponto. Tem que prestar atenção em cada segundo do vídeo, porque o bicho fala rápido demais (às vezes isso me incomoda, às vezes tenho que voltar pra entender o que ele disse, às vezes acho legal). 
A estante que compõe o cenário dos vídeos também é sensacional e é a segunda mais invejada por mim entre os booktubers. Ele tem diversas coleções compostas por livros que os próprios fãs e editoras mandam também de distopias juvenis, clássicos modernos e antigos, baseadas em séries de TV ou filmes e vice-versa. 
Alguns vídeos encontrados no canal mostram situações por quem é fascinado por livros, como o que aborda como nos sentimos quando alguém quer emprestar nossos livros. Klébio é muito criativo e carismático, isso é, sem dúvida o ponto forte do canal.
Acho engraçado que o booktuber é desbocado às vezes no modo de falar do livro, então não se assuste ele soltar alguns pequenos palavrões no meio das resenhas, eu acho natural, as pessoas na vida real são assim por isso não tive pena em me inscrever no canal do carioca.

#3 LUIZ FILIPI DO LENDO NAS ENTRELINHAS


De cara o que eu acho mais charmoso nesse canal é a vinheta de abertura, super bem feita, rápida e precisa. A parte chata é que o autor tá sem postar faz algum tempo e parecia ser um projeto muito legal. Eu descobri boa parte do mundo de booktubers através de uma matéria publicada num jornal local e no portal desse veículo aqui de Manaus, onde falavam sobre a sensação desse tipo de vídeos lançados no Youtube. 
Sim, também dá uma certa invejinha da estante do Luiz e o meu vídeo favorito dele é a resenha sobre O Circo Mecânico Tresaulti que me fez ficar muito afim de ler este livro. O amor aos detalhes do Luiz traz algo a mais na produção local de canais do gênero, o outro que existe é o "meigo" moral da história. O blog, a página no facebook seguem um designer muito bonito que dá gosto de passar horas vasculhando. 

#4 THAÍS BARROS DO THE BOOK DILEMMA


Uma das minhas descobertas recente e é um canal super novo também que vem diretamente lá de Brasília. Inicialmente apresentado por Thaís e Clara, o canal agora é comandado mais pela Thaís Barros que é muito engraçada, quase uma versão do Klébio Damas de saias. Eu me divirto muito vendo os relatos e xingamentos dela. Cheguei no canal do The Book Dilemma, após ler o segundo livro da trilogia Maze Runner, a edição era A Prova de Fogo, muito frustrado com o final hiperaberto deixado pelo autor eu queria ter uma prévia do que acontecia logo no terceiro livro e então cheguei a crítica super engraçada e sincera da Thaís. 
Sem sombras de dúvidas os relatos dela sobre a Bienal do Livro de São Paulo que rolou em agosto deste ano são os melhores e que mais souberam falar sobre as sensações. Demais canais quiseram falar de uma forma mais generalizadas, o dela falou de um ponto de vista bem intimo o que achei super sensacional e me fez ter cada vez mais carisma por ela. 
Não podemos deixar de mencionar também a paixão da menina por Cassandra Clare e as reações ao ver o trailer da primeira adaptação cinematográfica da série The Maze Runner. 

#5 EDUARDO CILTO DO PERDIDO NOS LIVROS



Perdido nos livros é o mais popular de todos até agora, ele possui atualmente 66 mil inscritos e contando... O Eduardo Cilto tem uma produção boa para o canal com diversas situações e interpretações que ele faz para animar os vídeos. É acho que vocês já perceberam que tô mais afim de rir com as críticas do que ficar sérião assistindo elas, é o que eu busco num canal, uma forma divertida de encarar as críticas aos livros e o Edu tem isso. Ainda tô vendo os vídeos dele, mas pelo pouco que eu já assisti tô curtindo.