Conto: O Teatro, de Leandro Leite
Leandro Leite
Hugo
Rossi era um jovem jornalista que nos últimos tempos não estava tendo o
prestígio que merecia na emissora de TV na qual trabalhava. Logo que foi
contratado, ficou responsável por cobrir as pautas culturais, elaborando
matérias que fossem ao ar no telejornal local noturno. O problema é que a área
de cultura na cidade não trazia uma vasta gama de matérias que fossem interessantes
para ir ao ar todas as noites, isso até o encerramento do Festival de Teatro no
dia anterior.
“Entraremos com o link ao vivo em um minuto, Rossi”,
disse o produtor enquanto corria para detrás da câmera, ao sentar pegou seus
enormes fones de ouvido e esperou o sinal para que Hugo começasse a dar a
notícia do dia.
O cenário
que se erguia atrás de Rossi era a fachada do majestoso Teatro Amazonas, toda
lacrada com faixas policiais e moldurada por um belo pôr do sol amazônico. O
repórter pensou em todas as coisas que tinham acontecido nas últimas vinte
quatro horas. Era para ser apenas mais uma matéria de um minuto e meio no
máximo, mostrando um encerramento de um festival de artes cênicas qualquer, se
não fosse o assassinato de um ator nos bastidores após a cerimônia final e o
pior de tudo, logo um dos grandes vencedores da noite.
“Eu não
quero saber se você não cobre a área policial, eu quero que você esteja por
dentro de cada detalhe desse caso”, o berro que o editor-chefe dera naquela
manhã na redação vinha em flashes na cabeça de Hugo. “Afinal, você estava na
cena do crime, Rossi. Fora que conhecia o morto, não é verdade?”.
As
palavras que o seu editor-chefe falara na reunião de pauta do jornal ainda
ecoavam nos pensamentos do repórter, que estava confuso com tudo o que tinha
acontecido. Uma coisa mexia mais ainda com ele: a verdade que o seu chefe havia posto no final da frase.
Hugo Rossi conhecia o ator brutalmente assassinado naquele teatro.
“Victor
Vaz de 24 anos estava acompanhado de sua namorada Lea Vasconcelos, de 22, que é
produtora da companhia de teatro do casal e também sua companheira de palco. A
jovem conseguiu escapar com vida. O atentado, conforme esclarecido pelos
policiais, foi praticado por um assassino contratado, segundo depoimento da
vítima que continua viva”, disse Hugo enquanto olhava atentamente para a
câmera, o produtor ao lado do cinegrafista fazia sinal de que estava indo tudo
bem.
O âncora
do jornal, que estava no estúdio da TV naquele momento, iria fazer mais algumas
perguntas sobre o caso e logo depois pediria para a produção colocar no ar o
vídeo da matéria completa que continha a lista de suspeitos até aquela noite.
Rossi estava nervoso, era sua primeira vez em um link ao vivo para o telejornal
da emissora, ainda mais o telejornal noturno, que era assistido por todos da
cidade. Mantenha a calma, você está
crescendo, pensou ele.
“Olha, a
polícia falou com a nossa produção, mas disse que ainda está investigando o
caso. O crime se torna mais complexo por ter sido praticado por um terceiro
elemento, o assassino de aluguel. Mas, estivemos na tarde de hoje no hospital e
conversamos com exclusividade com a sobrevivente, a namorada do jovem morto”, essa
era a deixa para a produção colocar no ar a matéria com uma entrevista de Lea
Vasconcelos. Hugo correu até a van da produção para conferir como ficou
a edição final.
“Cara,
fomos os únicos que conseguiram falar com ela até agora, você é demais”, dizia
o produtor entusiasmado pelo furo, enquanto Hugo entrava na cabine de edição
móvel da TV.
Rossi
contou com a amizade que tinha com Lea, feita logo no começo da cobertura de
eventos culturais. Entretanto, naquela manhã após o crime, ele não pensava que
fosse conseguir autorização pra entrar no hospital e gravar a entrevista com
ela, mas graças aos seus contatos, pôde entrar no quarto hospitalar, que
naquele momento aparecia na televisão da cabine.
Uma
frágil Lea, diferente daquela sorridente que ele havia conhecido meses atrás
era enquadrada pela câmera. Seus cabelos escuros estavam desalinhados, sua pele
estava pálida, igualmente aos seus lábios que se mantinham ressecados. Ela
estava na maca dando o seu depoimento ao repórter, seu rosto tinha três
hematomas, fora os arranhões espalhados pelo corpo.
“O médico
me disse essa manhã que perdi o meu bebê, no fim do mês eu faria três meses de
grávida. Nós estávamos tão felizes com tudo”, dizia Lea ao repórter.
“Tudo
aconteceu de forma estranha, bebemos alguma coisa naquela noite que nos fez
apagar. Uma hora, estávamos no jardim externo do teatro, comemorando com amigos
e rindo. Outra hora, acordamos numa sala vazia que fica atrás do palco, foi
quando resolvemos sair de lá...”. Ela hesita e olha para a câmera séria, as
palavras parecem se engasgar em sua garganta.
“O
bandido, seja lá o que ele for, atacou Victor e me fez desmaiar, quando eu
acordei estava naquele salão que fica na parte de cima, o que chamam de Salão Nobre. Foi quando ouvi Victor gritar e corri para alcançá-lo”. Lea começa a
chorar e a matéria passa para uma narração de Hugo agora sobre o que foi achado
na cena do crime.
♦ ♦
♦ ♦ ♦
Em outro
ponto da cidade, Lea estava sozinha no seu quarto de hospital, assistindo ao
noticiário, quando a reportagem começou a mostrar as pessoas que estavam sendo
interrogadas pela polícia. Eram três suspeitos até o momento, dizia o jornal.
Foi quando entrou uma arte gráfica que começou a mostrar as fotos dos
investigados na tela.
“Alice
Moraes foi interrogada pela polícia, pois mantinha um caso extraconjugal com a
vítima. Já Ricardo Ferraz era ex-amigo de Victor Vaz e já tinha feito
declarações públicas que queria a morte do colega de atuação, devido uma briga
nos bastidores. O último suspeito é o roteirista, Guilherme Müller, que esse
ano foi banido pela organização do festival após acusar o casal Lea e Victor
por plágio pela peça que eles concorriam na premiação do evento”, narrava Rossi.
Lea pegou
uma pílula do seu remédio e tomou com um copo de água. Ao encostar sua cabeça
no travesseiro lembrou de tudo que tinha passado na noite anterior. Pensou
consigo mesma, acho que não deixei você
gravar toda a história, não é Hugo?
“A peça,
Uma Tragédia Com Chifres, de autoria de Lea Vasconcelos, foi campeã dessa
edição do festival, levando assim o prêmio de 100 mil reais para a companhia
Streeteatro do casal, que começou atuando pelas ruas da cidade”. Hugo
continuava a ecoar em uma voz metálica pelo quarto de hospital, o som da TV
começou a ficar distante nos pensamentos da namorada do jovem morto.
“Por
incrível que pareça, o enredo da peça tem algo similar com o que aconteceu
esta madrugada. No roteiro, um casal é atormentado pelo diabo até que o marido
é arrastado para fora de casa pelo ser folclórico para pagar pelos seus
pecados. No fim da comédia, o diabo nada mais era que a amante que queria fugir
com o marido da outra. Na vida real, o final da história foi bem mais trágico”,
e assim terminava a reportagem de Hugo Rossi sobre o crime.
Lea
queria esquecer o mundo por um momento, mas seus pensamentos não a deixavam. Que inferno! A jovem atriz então se levantou
da cama e resolveu fumar na janela e foi quando todo o terror daquele
assassinato lhe assombrou a memória.
Na
madrugada anterior, Lea e Victor em trajes de gala, estavam no salão nobre do
Teatro Amazonas com uma terceira companhia nada agradável.
“Você
sabe os segredinhos do seu namoradinho, não sabe, minha donzela?”, dizia o
assassino enquanto apontava sua arma para o casal amedrontado, sua voz ecoava
pelo teatro vazio.
Lea
ignorou a pergunta do cara mascarado a sua frente, ele usava a máscara do drama
conhecida como símbolo do teatro mundo a fora.
“Pois,
saiba que o seu Dom Juan, tem um caso há um ano com sua amiguinha de escola,
Alice, você sabia disso? Ainda vai continuar na merda da minha frente para defendê-lo?”, disse o assassino com a
arma ainda em punho direcionada a Lea, que estava posicionada a frente de
Victor para levar o tiro primeiro se fosse necessário.
Ela virou
lentamente para Victor, sem se importar se poderia ser atingida por uma bala a
qualquer momento, só queria olhar no rosto do seu namorado e saber se o
adultério era verdadeiro. Victor lagrimava de nervosismo e arrependimento, até
despencar aos pés da moça, agarrando a parte debaixo do vestido dela. Ele dizia
alguma coisa sobre ter sido um erro, uma fraqueza, que já tinha tentado
abandonar a amante, mas a mesma não o deixava fazer aquilo.
“Meu
amor, eu ficava com ela por ameaças, eu não queria lhe ver sofrer por um erro
meu, eu não sabia como acabar com aquilo. Me perdoa, eu te amo, te amo muito”.
E ele continuava na sua súplica aos prantos. “Lea, por favor, não escute esse
miserável. Meu amor, eu sei que você já ficou com o Ricardo, eu sei, que você
me traiu, então me entenda dessa vez”.
“Mentira,
eu nunca fiquei com o seu amigo, eu não sou uma sem-vergonha como você, que
dizia que me amava. Você é um cretino”, respondeu ela ao ultraje, tentando tirar Victor da aba do
seu vestido em vão.
“Nós
brigamos por causa de você, amor. Ele sabia que eu ficava com a Alice, ela
contou pra ele. Ele roubaria você de mim”, balbuciava o ator de joelhos, despido
de qualquer segredo.
“Por isso
você não deixava ele se aproximar de mim e resolveu se afastar dele? Foi por
isso, não é? Quem sabe ele me desse o valor que eu não recebi de você?”,
gritou Lea com uma amargura no coração de vê-lo arrependido pelo o que fez,
quando já era tarde demais.
“Ah, que
lindo o amor teatral. Se eu namorasse um ator como você, minha donzela,
pensaria duas vezes antes de acreditar nessas lágrimas de crocodilo desse
atorzinho de bordel”, dizia o mascarado.
Lea
olhava horrorizada para Victor. Os olhos do ator estavam vermelhos pelo choro,
foi quando ele se virou cheio de raiva para o assassino e resolveu
confrontá-lo.
“QUEM
VOCÊ PENSA QUE É?”, foi o que Victor gritou quando correu em direção ao cara
armado. O mascarado atirou então em dois lustres do Salão Nobre. Um estava
muito próximo de Lea, o que a fez cair no chão. O baque dos lustres no piso fez
uma peça estilhaçar um dos espelhos na parede.
“Victor,
Victor”, gritava a atriz, quando viu seu namorado sair pela porta e correr, enquanto
o assassino ia atrás dele. Sem forças para levantar, ela contemplou a musa pintada no
teto do salão, segurando louros entre as nuvens, conhecida por acompanhar
qualquer visitante com o olhar, uma ilusão de ótica pintada pelas mãos de
Domenico de Angelis. Lea, então, se sentiu julgada por aquele olhar: seria ele
de pena ou de espanto? Ao seu redor, pedaços do espelho quebrado refletiam ‘O
Olimpo dos Artistas’ em fragmentos, a bela obra que retratava um tranquilo e
harmonioso céu na abóboda do salão nobre.
O céu está caindo, meu céu está caindo.
Poucas
horas atrás, o casal aproveitava a distração do encerramento da cerimônia que
acontecia no jardim externo, para adentrar ao teatro às escondidas. Conseguiram
chegar ao camarim, onde fizeram amor na bancada em frente ao espelho,
derrubaram todas as maquiagens, todos os objetos deixados ali, para realizarem
sua fantasia sexual.
“Sabe
quem não deve tá nada feliz uma hora
dessas?”, falava Lea sentada na bancada olhando para Victor em pé. “Guilherme
Müller”, ambos riram.
“Ele deve
estar querendo nos matar agora, não é mesmo?”, disse um inocente Victor que
estaria morto dentro de algumas horas, enquanto levantava o vestido de Lea e
ela tirava o smoking dele. Ao seu lado deixaram o troféu que tinham
ganhado no festival.
“Você
está tão sexy de vermelho, minha princesa”, disse ele ao parar
um beijo entre os dois e fazer ela notar aqueles lábios borrados de batom.
Os
gemidos de prazer que Lea dera no camarim seriam tão diferentes dos que ela
daria duas horas mais tarde, quando ela seria empurrada da escada do segundo
andar do teatro e apagaria completamente.
♦ ♦
♦ ♦ ♦
Já eram
duas da manhã, fazia exatamente vinte quatro horas que o crime tinha
acontecido. Lea já estava dormindo, quando alguém entrou no seu quarto no
hospital. A roupa branca que aquele vulto trajava era a única coisa que
refletia na luz que vinha da janela.
“Hora do remédio”, disse a
voz para despertar Lea.
“Você me garante que isso
não é veneno? Garante que isso vai me deixar bem, depois que tudo isso
passar?”, questionou Lea olhando os olhos do enfermeiro, que se escondiam por
detrás da máscara médica.
“Você ainda duvida de mim,
minha donzela?”, disse o mascarado, que recebeu um sorrisinho dócil de Lea,
enquanto ela bebericava uma poção esverdeada.
“Tivemos um dia longo, não
foi?”, perguntou Lea ao falso enfermeiro, enquanto tentava esquecer o sabor horrível
que aquela poção deixara na sua boca.
O mascarado já estava
sentado na poltrona em frente à maca, retirando a máscara médica que o
irritava. Quando admirou Lea arrumar seus cabelos em um coque, dentro de alguns
instantes aquela poção faria efeito. Ele tirou da sua jaqueta uma resma de
papel dobrado e começou a ler.
“Até ontem eu não entendia
porque você tinha trocado o final dessa peça, sabia?”, disse o assassino
enquanto folheava o script de Uma Tragédia Com Chifres. “Com o final original,
ela era uma trama espetacular”.
“Coisas do Victor. Falou
que uma comédia era o que faria mais sucesso com o público em geral. É o que
essa merda de plateia está preparada para receber, eles não têm saco de
entender um drama. A vida deles já é uma merda, assim como era a minha”, a
atriz então suspirou de alívio, enquanto falava friamente, diferente
daquela jovem que aparecia na reportagem da televisão, ela chegou até a janela
e acendeu seu cigarro.
“Você já pensava em matar
seu namoradinho, fazia algum tempo, não é? Essa peça você escreveu contando a
sua história, não foi?”, indagou o vulto atrás de Lea.
“Guilherme Müller, aquele
vigarista safado, falou a mesma coisa quando eu dei para ele revisar a peça.
Foi daí, que o idiota surgiu com a balela de que eu tinha plagiado a peça dele,
um completo babaca, não é?”, ela deu uma tragada e olhou de novo para o
enfermeiro no quarto. “Como ele sabia que no final a mulher atormentada pelo
diabo resolvia matar o marido e deixar que o diabo levasse o seu homem ao
inferno, eu resolvi mudar o final da peça”.
“O nosso teatrinho foi
perfeito ontem a noite, não foi?”, o assassino já percebia que Lea estava
ficando meio fraca.
“Os dois tiros no pé do
cafajeste adúltero e eis o grand finale:
tocar aquela arma e ter o prazer de detonar aquele coração que um dia eu tanto
quis que fosse só meu, mas não foi”.
A atriz lembrou-se do olhar
assustado de Victor na noite do crime, enquanto ele estava estirado ao chão do
teatro pedindo por socorro, as duas pernas do ator sangravam. Foi quando o
assassino concedeu a arma cordialmente a sua donzela.
“Lea, meu amor, o que você
está fazendo? Pelo amor de Deus!”, proferiu Victor.
“Vá pro inferno com esse seu
draminha de merda, seu hipócrita!”, gritou a namorada antes de consolidar sua
vingança com duas balas encravadas no tórax do ator. “Pense bem antes de trair
uma mulher, como eu”, disse Lea ao mascarado, “comigo é tudo ou nada”.
“Ainda bem que a minha
praia é outra”, respondeu o mascarado, ambos riram cinicamente.
Lea voltou seus pensamentos
ao hospital onde ela estava, sentia-se sonolenta e se encaminhou a maca onde
deitaria, quando resolveu perguntar ao assassino o que lhe aconteceria depois.
“Como Julieta sem o seu
Romeu, você irá dormir, ser dada como morta e é quando eu irei lhe resgatar,
minha donzela”.
“Você fez um ótimo trabalho
hoje me livrando da lista de suspeitos, eu fui a primeira a ser interrogada
pela polícia”, os olhos de Lea já estavam pesados.
“Que é isso, somos amigos,
não somos? Eu estarei aqui lhe esperando para estourarmos a grana desse
festival. Durma bem, minha donzela”.
Lea já escutava a voz do
seu cúmplice distante, como se ele ainda estivesse falando pela televisão.
Depois de alguns minutos, Hugo saiu do quarto.
Já eram três horas da manhã
quando Hugo tirou seu celular do bolso e foi direto na agenda, apertou em ligar
no contato salvo como: meu amor.
“Alô, meu anjo, trago
péssimas notícias”, dizia Rossi em tom
de deboche.
“Adoro suas péssimas
notícias, estou te esperando aqui em casa”, respondeu Guilherme Müller no outro
lado da linha.
“Sua Julieta já descansa em
paz com o seu Romeu”, disse o jornalista.
“O espetáculo tem que
continuar, meu amado, até mais”.
O conto "O Teatro" integrou a antologia Folhas Mortas (São Paulo, 2014), publicada pela Editora Livrus e organizado pelo autor Lajosy Silva, resultado do projeto Clube do Autor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O livro conta com as escritas de jovens universitários apresentadas em 15 contos. A temática dessa edição girou entorno de histórias sobre crimes e mistérios.





0 comentários