Conto: O Hotel Todort, de Leandro Leit
Nada se compara a emoção de você ter algo encadernado, publicado e lançado no mercado, mesmo que seja um conto que faça parte de uma coletânea, tudo faz você se sentir realizado e começar a dar passos lento rumo a vida de escrever histórias para contar aos outros.
Em 2012, através do projeto que tem na minha universidade participei do Clube do Autor, cujo tema daquele ano eram histórias fantásticas. Ainda eu tivesse inúmeras histórias esboçadas, engavetadas e engatinhadas, nenhuma delas se encaixava na delimitação de 5 páginas exigidas no projeto, o que me fez eu compor uma história completamente nova e inédita para publicar. Daí me surgiu a ideia de um Hotel que hospedasse fantasmas com pendências no mundo dos vivos e eis que surgiu o conto do Hotel Todort.
O nome da história vem do alemão e é explicado na história. A inspiração veio das aulas de alemão que eu tinha e me deixavam fascinados pela língua alemã, uma pena não ter formado turma para os períodos mais avançados do idioma na época o que fez eu parar de praticar o meu "deutsch".
Hoje, 2 de novembro, é o dia dos finados e resolvi compartilhar essa história publicamente e mostrar um lado diferente de encarar a data. Em o Hotel Todort os personagens passam a entender que a morte pode trazer respostas e reflexões de como lidamos com as memórias de entes queridos de uma forma meio cômica.
"Não sei o porquê, mas passamos a amar as pessoas muito mais depois de mortas e eu tive uma afinidade maior com a convivência póstuma de meu pai", diz o personagem principal.
HOTEL TODORT
Por Leandro Leit
O meu pai havia morrido há um ano. Minha mãe desolada fora passar longas
férias na casa de uma irmã. Minha vida era dividida entre a república e as
visitas constantes que eu deveria fazer ao Hotel Todort para resolver uma
grande questão.
Isso tudo começou na semana seguinte ao enterro do meu pai, que
simplesmente havia dormido para sempre depois de chegar exausto do trabalho e
falar com o dom da premonição para minha mãe.
“Estou morrendo de casanço, querida”, tombando na cama.
Foi a deixa para nunca mais ver aquele homem de pé e recolocá-lo
em um singelo caixão que lhe seria o colchão eterno, não muito confortável já
que estava encharcado com as lágrimas de todos nós e da principal cachoeira que
nascia dos olhos de minha mãe. Seria um triste fim e um luto grande se
estenderia em nossa casa, se no dia seguinte não fôssemos visitados
por Laure, a suposta amante de meu pai, que possuía um andar provocante e
um documento aterrorizante, onde o senhor Aurélio Fernandes, o falecido
do dia anterior, lhe passava as posses de nossa casa. O que fez minha mãe
gritar bem alto, um palavrão mal-educado, enquanto se erguia do sofá, com o
papel em punho, que aqui será substituído por:
“Safado.”
Um adjetivo que valeria tanto pelo adultério cometido, como pela
transição da casa à mulher participante de tal movimento bigâmico. Nessa
mesma noite, não sei se impressionado pelo acontecimento do dia ou pelos sonhos
serem realmente irracionais e terem um roteiro tão medíocre quanto os filmes
que passam de madrugada nos canais de televisão, recebi uma visita paterna e
completamente patética em um desvaneio noturno.
“Filho, preciso de sua ajuda, não consigo ter paz.”
O ambiente era branco e mesmo que não fossemos fashionistas e
exclusivamente minimalistas, branco era a única cor que trajávamos.
“O que aconteceu com sua mãe e com você não passa de um golpe
daquela mulher.”
Eu sabia que várias palavras iniciadas em P que poderiam ser
adicionadas àquela mulher, mas a única que consegui exclamar, ofendia o pobre
nome de um animal do submundo aquático.
“Que piranha!”
Pela manhã, despertamos eu e minha obsessão em desmascarar aquele
golpe, o primeiro passo seria investigar como ela conseguiu fraudar tal
documento. Minha mãe, encaixotava livros e copos em folhas de jornais, enquanto
atendia aos telefonemas e relatava o polêmico epílogo da história de meu pai.
Uma semana se passou e minhas investigações não estavam indo muito
longe, foi quando, numa noite fria, a janela do meu quarto se rompeu com um
vento, fui fechá-la rapidamente e ao voltar para a cama, que era meu divã
particular para os meus pensamentos cotidianos, me deparei com uma feição que
não era de um psicólogo para julgar minha paranoia tida após um sonho, mas sim,
a de meu pai em carne e... quero dizer espectro e plasma, seja lá qual
for a matéria que componha os fantasmas.
“Estou completamente vetado de seguir minha viagem adiante, tenho
que resolver esse problema e ficarei por aqui, até solucionarmos isso tudo.”
Não sabia se gritava, se aquilo tudo era um sonho de novo, fiquei
petrificadamente mumificado no meio do quarto, enquanto um rosto pálido e
familiar me falava.
“Juro que seremos rápidos nisso tudo e ainda tenho que limpar meu
nome com sua mãe. Mas, por ordens do mundo do além não posso me hospedar nessa
casa.”
Meu coração palpitava igualmente a uma panela de pipoca em
cozimento. Desde aquele dia, passei a visitar o Hotel Todort, um hotel barato
no centro da cidade e instalado num prédio mal assombrado.
“Eu mesma já morri aqui nessa cozinha, meu querido. A polícia
nunca solucionou o meu caso”, dizia a cozinheira enquanto preparava um prato
lamentável. “Isso é o que alimenta os fantasmas, a lamúria de uma família, uma
gota de lágrima, um pouquinho de agonia, desesperos e voilà”.
Os hóspedes eram todos falecidos com causas pendentes, já que o
hotel era uma falência, devido a toda energia negativa contida ali. Fora
construído por um alemão que conversava com os espíritos, até nomear o lugar de
Todort, o lugar da morte. Ele morreu e partiu sua viagem ao além
tranquilamente, afinal tinha seus créditos com os espíritos de lá, mas o lugar
fora ocupado por outras pessoas, onde todos acabavam morrendo misteriosamente.
“Filho, as assinaturas foram falsificadas por ela mesma e o
documento também.”
Com os fantasmas penetrando as paredes e revirando papeis, descobrimos
todo o esquema do golpe, eu mesmo entrei na casa de uma forma sobrenatural e me
apossei das provas. Tudo estava ao meu favor e sempre mandava notícias para
minha mãe, que mesmo se tivesse sua casa de volta, não perdoaria meu pobre e
fantasmagórico pai pela traição. Como estava na faculdade, me mudei para uma
república com cinco outros estudantes e nossa brincadeira do copo vinha
acompanhada de apostas e inexplicavelmente eu conseguia prever todas as
respostas, até não deixarem mais eu tocar no copo por acharem que eu roubava
dessa forma baixa e vulgar, quando na verdade tinha um apadrinhamento do além.
Não sei o porquê, mas passamos a amar as pessoas muito mais depois de
mortas e eu tive uma afinidade maior com a convivência póstuma de meu pai. Aos
domingos passeávamos pelo cemitério juntos com outros fantasmas que
achavam suas sepulturas seus próprios monumentos e faziam até concurso delas, o
trofeu era sempre uma vela de sete dias.
Quando finalmente conseguimos reunir as provas, descobrimos que a
golpista da amante tinha conseguido arrastar
um juiz para o altar e se casaria em breve com ele. Mas o que me
surpreendeu ainda mais, foi que um dia antes do casamento, a mulher entrou no
quarto e me pegou vasculhando os seus armários. Assim que me reconheceu com os
papeis em minha mão, não teve outra escolha e soltou logo dois tiros rumo ao
meu coração. E como todo criminoso clichê faz, ela fez questão de revelar o seu
crime de ter matado envenenado meu bigâmico pai o que o fez sucumbi
naquela fatídica noite do falecimento, com o dinheiro da venda da
casa em mãos ela conseguiu viajar em um cruzeiro onde se aproximou do tal juiz.
Após isso tudo, me colocou em um saco preto qualquer, os assassinos deveriam
pensar que ainda ficamos um pouco dentro do corpo até sairmos e rompermos as
barreiras da carne e sacos pretos, se vocês não sabem, deixam tudo muito
abafado e quente, a sorte era que eu não respirava mais.
Com a minha viagem ao além cancelada por mim mesmo até eu me
vingar da minha dama da morte, fui me hospedar no Hotel Todort, onde fui
informado que meu pai já havia partido, pois seu caso havia sido resolvido e
ele mesmo estava todo empolgado em fazer minhas boas-vindas no além-vida. Eu
tinha um plano a ser executado e logo o coloquei em prática.
E foi na noite seguinte que ouvimos algumas vozes vindas dos
corredores inferiores.
“Que brincadeira é essa, amor? Por que passaríamos, nossa
lua-de-mel aqui?”
“Eu não sei, deve ter tido algum engano, mandei arrumarem essas
coisas por mim. Iríamos apenas descansar aqui, pra depois fazermos nossa
viagem, minha Laurezinha”, foi o que disse o velho baixinho e careca abraçando
a mulher completamente indignada em seu vestido de noiva.
“Vamos logo pra bem longe daqui, meu baixinho”, disse a amante que
agora era a recém-casada do juiz. De repente tudo ficou escuro e em algumas
horas vários flashes, lanternas e sirenes mergulharam o edifício em luzes
vindas de todas as partes.
A cozinheira do hotel, foi a primeira a acordar no dia seguinte e
ficou decepcionada por não aparecer na foto da capa do jornal. Eu atrás dela
estava pronto para partir.
“E eu tava bem do lado desses dois corpos aí nesse chão”, foi quando
eu alcancei a porta, ficando ao seu lado e fazendo-a exclamar bem alto. “Assim
o senhor me mata, parece que nem visagem”. Foi o tempo de ler a manchete do
jornal e soltar uma gargalhada fatal, que trocadilho barato afinal, hein?
FIM
O conto "Hotel Todort" integrou a antologia Folhas Fantásticas (São Paulo, 2012), publicada pela Giz Editorial e organizado pelo autor Lajosy Silva, resultado do projeto Clube do Autor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O livro conta com as escritas de jovens universitários apresentadas em 35 contos.
Sinopse: Folhas Fantásticas...Tudo pode começar com uma branca flor coberta por chuva. Alguém que caminha em uma estrada e encontra um trono de pedra. Pode ser uma menina chamada Eliza ou um rapaz, Leonardo, em sua experiência de quase vida. Podem ser folhas que falam de um boto, um curupira, Laura e sua boneca, Nicola e um segredo. Pode ser uma última pintura, um hotel Todort com seus fantasmas, tudo em família e entre nós. Uma visita, hora, um passado, o desespero de irmãs. Alguém que se esconde em uma casa de árvore, um sobradinho, fugindo de um tribunal. Um louco que escreve em cadernos, que desja voar, livrar suas amarras. Alguém que já viu isso antes em uma expedição. Um casal, C & E em uma floresta, em busca de eternidade para Pierre, sozinho na multidão ou o começo do fim entre vampiros.
P.S.: As fotos que acompanham o conto são do Castelinho, um prédio que funciona hoje como museu localizado no bairro do Flamengo no Rio de Janeiro. Numa viagem que fiz por lá, resolvi visitar o local e fiquei encantado pelo lado gótico e sombrio que o prédio tem, vale a pena conferir.





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